Metodologia do Faro de odds
Esta página descreve, etapa por etapa, como o Faro sai da odd publicada por uma casa de apostas e chega aos números que publica: o preço justo de um resultado, o valor esperado (EV) de uma aposta e a detecção de arbitragem entre casas. Estão aqui os critérios numéricos que o sistema usa e, no fim, o que este método não faz.
Escopo: mercado brasileiro regulado (domínios .bet.br), autorizado pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
1. Coleta de odds
O Faro lê as odds diretamente das casas de apostas com licença brasileira. Uma casa só entra na coleta se estiver na lista oficial de empresas autorizadas — a mesma lista publicada pela Secretaria de Prêmios e Apostas, que um verificador relê periodicamente. Casa que perde a autorização deixa de ser coletada.
Há dois tipos de leitura, e a diferença entre eles explica por que alguns mercados aparecem antes que outros:
- Leitura de lista — uma chamada traz muitos jogos de uma vez, mas só os mercados principais. É rápida e é o que mantém o comparador atualizado.
- Leitura por evento — uma chamada por jogo, trazendo todos os mercados daquela partida, inclusive escanteios, cartões e finalizações. É completa e cara: por isso os jogos são priorizados, e não lidos todos com a mesma frequência.
Cada leitura é gravada como um registro novo, com data e hora, e nada é sobrescrito. Esse histórico é o que permite comparar depois a odd de um alerta com a odd em que o jogo fechou — a base da auditoria pública.
2. Normalização: o mesmo jogo em fontes diferentes
Fontes diferentes escrevem o mesmo jogo de formas diferentes. Para o comparador funcionar, todas precisam apontar para um único evento. A resolução é feita em três passos:
- Se aquela fonte já mapeou aquele jogo antes, o vínculo é reaproveitado direto.
- Caso contrário, procura-se um jogo do mesmo esporte, com início dentro de uma janela de 30 minutos, e com os nomes dos times equivalentes depois de normalizados — sem acento, sem pontuação, sem sufixos como “FC” — aplicando também uma tabela de apelidos para nomes que divergem de verdade.
- Sem correspondência, cria-se um evento novo.
Regra dura: só unimos dois registros com a mesma orientação mandante × visitante. Se uma fonte inverte os times, preferimos criar um jogo duplicado a unir errado — unir com a orientação trocada inverteria as odds de cada lado, e todo cálculo em cima disso ficaria silenciosamente errado.
3. Equivalência de mercados
Duas odds só podem ser comparadas se apostarem exatamente na mesma coisa. O Faro normaliza cada oferta em quatro partes: mercado (resultado final, total de gols, escanteios...), seleção (casa, empate, fora, mais, menos...), linha quando existe (2.5 gols, 9.5 escanteios) e a casa que publicou.
Nos mercados com linha, a comparação acontece só dentro da mesma linha. Comparar “mais de 9.5 escanteios” com “menos de 8.5” produziria uma arbitragem que não existe: entre 9 e 9.5 os dois lados perdem.
4. Detecção de surebet (arbitragem)
Toda odd carrega uma probabilidade implícita: o inverso dela. Odd 2.00 implica 50%; odd 4.00 implica 25%. Somando as probabilidades implícitas de todos os resultados de um jogo na mesma casa, o total passa de 100% — a diferença é a margem que a casa cobra.
O motor monta a cobertura pegando a melhor odd de cada resultado entre casas diferentes. Se a soma dos inversos dessas melhores odds fica abaixo de 1, existe arbitragem: cobrir todos os resultados custa menos do que o retorno de qualquer um deles. A margem da operação é o quanto essa soma ficou abaixo de 1.
margem = (1 ÷ Σ(1/odd) − 1) × 100
A divisão do valor entre as pernas é proporcional ao inverso de cada odd, de modo que o retorno seja o mesmo em qualquer resultado. A calculadora faz essa conta, aberta e sem cadastro.
Quais mercados entram — e por quê
Só entram mercados cujos resultados são mutuamente exclusivos (não podem acontecer juntos) e exaustivos (um deles obrigatoriamente acontece): resultado final, ambos marcam, total de gols, escanteios, cartões, empate devolve aposta, ímpar/par, cartão vermelho, finalizações e chutes no gol — do jogo e de cada time —, além de três combinações de resultado com dupla chance que cobrem os três resultados sem sobreposição.
Dupla chance sozinha fica de fora (os resultados se sobrepõem). O handicap asiático de gols está em teste, só nas linhas de meio gol (−0,5, +1,5...), em que nenhum placar devolve a aposta; as linhas inteiras e de quarto ficam de fora, porque devolvem a aposta inteira ou metade dela e a conta não fecharia como prometido.
5. Revalidação e ciclo de vida
Detectar não é anunciar. Uma arbitragem recém-detectada muitas vezes é odd velha de uma casa que já corrigiu o preço. Por isso cada oportunidade passa por três estágios:
- Instável:
- Recém-detectada, ou as casas das pernas mudaram. Não vira alerta, não entra nas estatísticas públicas e não é anunciada em lugar nenhum.
- Consolidada:
- Sobreviveu a duas varreduras seguidas com as odds relidas nas casas envolvidas. Só a partir daqui a oportunidade é publicada, vira alerta e entra em todo número que o site divulga.
- Expirada:
- Alguma casa mudou a odd, suspendeu o mercado ou o jogo começou. Sai do radar e vai para o histórico.
Há ainda uma quarta situação, que a tela mostra separada: a oportunidade que ainda fecha pela última odd lida, mas cuja leitura já passou de 15 minutos. Ela não é descartada — pode muito bem continuar de pé — mas sai da vitrine de “dá pra apostar” e vai para uma seção que pede conferência na casa. Anunciar um preço que talvez não exista mais é a única coisa que este produto não pode fazer.
Nas estatísticas públicas entram apenas oportunidades consolidadas com margem a partir de 0,5%.
6. Preço justo: tirando a margem da odd
Enquanto a surebet compara casas entre si, a aposta de valor compara uma casa com o preço correto. Para saber se uma odd está boa, é preciso primeiro estimar quanto ela deveria valer.
O ponto de partida é uma linha de referência: uma operação profissional que aceita apostas grandes e, por isso, precisa precificar com precisão — quem aceita volume alto não sobrevive errando preço. O nome dessa referência não é divulgado, e essa é uma decisão deliberada nossa.
Mas a odd da referência também embute margem. Removê-la é o passo chamado devig. O método usado aqui é o de Shin (1992), e a escolha é o ponto mais importante desta página.
Por que Shin, e não o método que a maioria ensina
O método popular — chamado multiplicativo — remove a margem em proporção igual de todas as seleções. O problema é que casas de apostas não distribuem margem por igual: elas carregam mais margem no azarão, porque é ali que o apostador amador aposta. Removendo por igual, você tira margem de menos das odds altas, superestima a probabilidade delas e passa a enxergar valor onde não existe.
Medido nos nossos próprios alertas: nas odds a partir de 4.00, o método multiplicativo apontava +4,1% de valor onde a vantagem real era −0,1%. Todo o “valor” dos azarões era artefato da conta, não oportunidade.
Shin modela a causa em vez do sintoma: parte do princípio de que uma fração do dinheiro apostado vem de gente informada e que a casa se protege distribuindo a margem de forma desigual. Resolve-se numericamente a fração que faz as probabilidades somarem exatamente 100%, e o resultado é a probabilidade justa de cada resultado. O inverso dela é o preço justo.
7. Cálculo do EV e do tamanho da aposta
Com o preço justo em mãos, o valor esperado de uma odd oferecida por uma casa brasileira é a diferença entre as duas:
EV% = (odd oferecida ÷ odd justa − 1) × 100
Uma casa que paga 2.10 num resultado cujo preço justo é 2.00 está oferecendo +5% de valor. O padrão do sistema é sinalizar a partir de 2%.
O tamanho sugerido da aposta usa o critério de Kelly, que dimensiona a aposta pela vantagem e pela odd. A tela mostra um quarto de Kelly, e não Kelly cheio: Kelly cheio maximiza o crescimento teórico supondo que a probabilidade estimada está certa — e a nossa é uma estimativa. Fracionar reduz muito a oscilação da banca ao custo de um pouco de crescimento.
Isto é medição de preço, não previsão de resultado. Uma aposta com EV positivo pode perder — e perde com frequência. A vantagem, se existir, aparece no volume, ao longo do tempo.
8. As travas de sanidade
Um sinal só é emitido se todas as condições abaixo forem satisfeitas. Elas existem porque o maior risco de um motor de EV não é deixar de achar valor — é inventar valor a partir de um dado ruim:
- Odd máxima de 15. Acima disso, um erro de digitação de uma casa é mais provável que uma oportunidade real.
- Leitura recente. Tanto a referência quanto a odd da casa precisam ter sido lidas há menos de 20 minutos.
- Mínimo de duas casas cotando o mercado. Com uma só não há mercado para comparar.
- Teto de margem na referência. Se a própria referência está cobrando margem alta, ela está dizendo que não sabe o preço daquele jogo — quanto mais margem há para remover, mais o devig vira chute. O mercado inteiro é descartado acima de 8,5% de margem. Esse número foi calibrado medindo os mercados de resultado final dos campeonatos que cobrimos: as ligas grandes ficam entre 4,7% e 7,6%, enquanto qualificatórias de torneios menores passavam de 10% — e era exatamente de lá que vinham alertas absurdos de +29% de EV.
- Auditoria da referência pelo mercado. Esta é a trava mais importante, e a pergunta que ela responde é melhor que a anterior: em vez de “a margem está alta?”, ela pergunta “a referência está errada?”. Se uma casa discorda da referência e do resto do mercado, foi essa casa que errou o preço — isso é valor, e deve disparar. Se a referência discorda do mercado inteiro, quem errou foi ela — e isso é ruído, por maior que o EV pareça. A conta usa a mediana do mercado justamente porque a mediana não se move por causa de uma casa fora do preço, que é o caso que queremos preservar. Acima de 2,5 pontos percentuais de discordância, com pelo menos três casas formando consenso, o sinal não sai.
Sobre a última trava, uma ressalva honesta: ela foi calibrada sobre uma amostra pequena (114 mercados). O sinal é consistente, mas o limiar exato deve ser recalibrado conforme o histórico crescer.
9. Auditoria dos sinais
Depois que um jogo começa, a odd de fechamento daquele mercado é capturada e comparada com a odd que foi sinalizada. A diferença entre as duas é o CLV (do inglês closing line value, valor da linha de fechamento). CLV positivo significa que o preço avisado era melhor que o preço final do mercado — e é o indicador que mede habilidade com muito menos amostra do que o resultado financeiro, porque no fechamento o mercado já sabe quase tudo sobre o jogo.
Auditamos o que o motor gera, não o que enviamos. Todo sinal entra na auditoria no instante em que é detectado — antes de sabermos se vai dar certo, e mesmo que ele nunca vire alerta para ninguém. É de propósito: se auditássemos só o que foi enviado, bastaria não enviar um sinal ruim para ele nunca aparecer, e a auditoria viraria vitrine.
O retorno simulado também é publicado, sempre acompanhado da margem de erro. Quando a margem é maior que o próprio resultado, a página diz com todas as letras que aquele número ainda não significa nada — porque não significa. Ver a auditoria.
10. O que este método não faz
- Não prevê resultado de jogo. Mede preço, não desfecho.
- Não garante execução. A odd pode mudar entre a leitura e a sua aposta, a casa pode recusar ou limitar, o mercado pode ser suspenso. A matemática é fechada; a execução não é.
- Não gera sinal de EV em escanteios e cartões. Esses mercados aparecem no comparador e podem virar surebet, mas nunca viram alerta de valor: não há linha de referência confiável para eles. Preferimos avisar menos a avisar errado.
- Não cobre todas as casas o tempo todo. A leitura completa de mercados é cara, e os jogos são priorizados.
- Não promete retorno. Nenhum número desta página é projeção. Resultado passado não garante resultado futuro.
11. Fonte, atualização e citação
Os dados são produzidos pelo próprio sistema do Faro de odds, a partir das odds publicadas pelas casas com licença brasileira. A lista de casas autorizadas vem da lista pública da Secretaria de Prêmios e Apostas.
Os números vivos ficam nas páginas que os publicam, sempre com a data e hora da apuração: dados do mercado, radar de surebets, histórico e auditoria.
Este conteúdo pode ser citado e resumido com atribuição a Faro de odds e link para a página de origem. Ao citar uma estatística, vale indicar a data ou apontar para a página que a publica, que é onde ela fica sempre atual.
Ver o método em funcionamento
O Faro de odds é uma ferramenta de análise e comparação de odds. Não somos casa de apostas, não aceitamos apostas e não intermediamos transações financeiras. Apostar envolve risco. Proibido para menores de 18 anos.